Talvez o maior trabalho de nossas vidas seja resgatar a criança que deixamos se perder na nossa Estrada. Fomos muito abandonados e muito nos abandonamos pelos lugares aonde andamos, pelas instituições pelas quais passamos. Nos uniformizaram, pintaram nossos rostos, esconderam nosso ser, nos entortaram e nos endireitaram. Fomos moldados e nos moldamos de acordo com as conveniências institucionalizadas pelas escolas, pelas famílias e pelas religiões.
Nosso foco foi tirado de nós mesmos, de nossos sentimentos mais íntimos advindos da nossa relação com o mundo e com as pessoas e colocado em nossas metas, nosso impacto social, nas aparências e nas conquistas. Construímos castelos, edificamos pontes, construímos barreiras, formamos nossos poderes. Criamos milhares de artifícios e nos identificamos com eles para nos proteger, salvaguardar, enriquecer e controlar. Precisávamos ou precisamos, a todo custo, ser poderosos. Tornamos-nos competitivos, vaidosos e inertes. Inertes no sentido de uma transformação interior, de um evoluir humano.
Crescemos e nos movimentamos em um eixo mas nos atrofiamos em outro. Acumulamos posses, dinheiro, títulos e até mesmo conhecimento e perdemos contato com a nossa essência, com a nossa alma, e, porque não dizer, com o divino que existe em nós. Perdemos nossa humildade e nossa simplicidade, nosso amor e nossa tolerância e portanto o contato com tudo aquilo que pudesse tornar-nos mansos bons para conosco mesmo, com o mundo e com os nossos semelhantes. Tornamos-nos artificiais, numa luta vã e cega. Tornamos-nos, muitas vezes inconseqüentes, destrutivos e maus porque perdemos o contato com a essência das coisas, das pessoas e da vida.
Criou-se em nós uma vazio incomensurável do qual tentamos nos afastar a todo momento construindo artifícios e criando crateras cada vez maiores em nosso ambiente, tanto interno como externo. É o caminho de difícil volta: quanto mais nos embrenhamos nele mais nos perdemos e, o que é pior, perdemos o contato com aquilo ou com as pessoas que poderiam nos guiar e nos trazer de volta. Perdemos o verdadeiro sentido e a direção de nossas vidas. Ficamos fascinados, hipnotizados ou mesmo encantados com nossas conquistas, espelhos e quinquilharias que supostamente nos amparam, mas que nos sufocam na promessa de nos trazer segurança e conforto.
Tornamos-nos sonâmbulos agentes de um mundo artificial, fantasioso e falso. Almas penadas em busca de salvação. Qual o caminho que poderia nos trazer de volta e nos libertar? Nos libertar para uma vida mais plena, íntegra e essencial? Uma vida rica em CONTATO?
Contato com nós mesmos, com o outro, com o mundo e com as coisas ou seres muitas vezes inimagináveis por nós. Contato com o novo, o inusitado, com aquilo que nós não conhecemos nem controlamos, mas que poderia nos arrebatar, encantar e encher as nossas vidas de alegria, surpresas e realizações humanas. O novo, o inusitado pode ser encontrado em tudo à nossa volta, porque tudo está em movimento e se transformando. Em tudo está a vida se nos ENTREGARMOS ao movimento e não nos cristalizarmos em nossas defesas. Viver é se transformar, evoluir, crescer e nós só nos transformamos no contato. Para haver contato não pode haver artifícios ou defesas. É preciso que haja uma entrega genuína e pura para que o mais íntimo de nós possa tocar e ser tocado.
É preciso que sejamos ativos, desapegados e despretenciosos, de forma a nos comprometer mais com o processo de estar vivendo do que com o resultado ou com os ganhos de nossos atos. É preciso simplicidade e tolerância para nos colocarmos disponíveis para o que encontrarmos, sem o pré-julgamento do bom-mau, certo-errado, mas para o significado intrínseco que cada ser ou evento produziu em nós, de maneira única e essencial, independente de qualquer convenção ou norma. Tudo acontece para nós e só se pararmos de evitar compulsivamente ou preconceituosamente o contato que poderemos tirar proveito desse privilégio que nossos encontros podem nos oferecer. Então uma coisa se torna de fundamental importância para o nosso caminho de volta, o estar ativo com humildade, simplicidade e tolerância.
É isso que Magui, em seu ambiente acolhedor, em seus gestos, sua vida e seu trabalho tanto nos propicia a todo instante. O 'Fazer o Pão', o tocar a massa com paciência e devoção é quase uma expressão simbólica que a um só tempo pode sinalizar a estrada como também nos ensinar a ensaiar os primeiros passos em direção à volta. O que é válido para transformar o trigo e fazer a massa, no contexto criado por ela, também é válido para tornar a massa humana que existe em nós em algo vivo, nutritivo e bom. |
| Jeremias Horta |
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"Haverá sempre esperança e paz na Terra enquanto houver um semeador semeando trigo e um padeiro amassando e cozendo o pão"
Cora Coralina |
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